A última concepção da vida é a que se leva no segundo precedente à morte. No instante derradeiro, naquele final que todos miseravelmente acham sem ter de procurar. O fim: os olhos fecham, os nervos não sentem. Segundos atrás, vida, insossa ou vibrante, mas vida. Depois, um estouro, um estalo quase surdo e invencível: a morte. O fim plácido, calmo, mesmo que o derradeiro capítulo tenha sido escrito com alguma truculência. Enérgico ou precipitado pode ser somente o jeito de ir embora - o que vem depois é languidez, é serenidade, é bucolismo, assim como os violinos do outono de Verlaine, lânguidos e monótonos, como aqueles a anunciar o Dia D em 1944 pela transmissão clandestina da gloriosa BBC.
Semana passada, presenciei a morte de um passarinho. Faleceu eletrocutado no centro de Porto Alegre. Um lance de azar, infelizmente. O pequeno animal, voando poucos metros acima de mim, perdeu as medidas, voou errado – imagino – e acabou enredando-se em dois fios ao mesmo tempo. O choque trouxe um barulho breve e agudo, e a bendita ave, que a milésimos antes parecia cheia de uma vivacidade aérea, atrapalhada e até divertida para aos meus olhos, caiu fulminada no chão, seca como uma caixa opaca e sem aquela mobilidade contagiante, tão propícia aos animais alados. O burburinho urbano foi breve: o defunto por pouco não caiu na cabeça de uma senhora que passava. Não houve feridos, tampouco impressionados. A urbe estancou por não mais que dois segundos, e voltou a fluir normalmente após isso, como se quisesse apenas saber do que se tratava. Como alguém que perde a atenção pelo cenário após achar o utensílio que procurava.
Mas de pronto, parei. Admirei-me daquele desfalecimento definitivo e surpreendente, tão macabramente usual. Confesso: foi a experiência mais defintiva que tive até hoje com o lado de fora desta vida. O externo, o do qual não se retorna. E, sinceramente, após a passagem do estado de alguma surpresa no qual me achava, acostumei-me à inusitada situação. Havia uma serenidade naquele corpo que instantes atrás talvez não fosse possível notar. Se a vida é energia, é excitação, é meio que leva ao fim, este fim, esculpido no delicado rosto do passarinho, me pareceu de uma naturalidade impressionante. Achei, naquele momento mais do que em qualquer outro até hoje, que a morte realmente não cabe como um estado definitivo. Não vi fim. Vi calma, desprendimento e eternidade. Talvez a morte sequer exista.
No fim das contas, o passarinho ficou jogado ao meio fio da calçada, sugerindo uma eternidade de mansidão e sossego no corpo após o choque e a descarga. Todos continuaram seu trajeto em direção ao instável da vida. A única coisa definitiva naquela rua, naquele momento, era a transcedental afirmação do passarinho. Todos corriam em busca de algo, e na minha mente, só ele tinha achado uma situação definitiva. É o valor que há em parar quando todos correm: o inusitado sempre prende a atenção, mas havia mais do que isso no ar. Pelo menos foi a sensação que tive naquela hora.